Quarta-feira, Novembro 25, 2009

Olhar o rio que é de tempo e água...

                           


                              Olhar o rio que é de tempo e água
                              E recordar que o tempo é outro rio,
                              Saber que nos perdemos como o rio
                              E que os rostos passam como a água.

                             Sentir que a vigília é outro sono
                             Que sonha não sonhar e que a morte
                              Que teme a nossa carne é essa morte
                              De cada noite, que se chama sono.

                              Ver no dia ou até no ano um símbolo
                               Quer dos dias do homem quer dos anos,
                              Converter a perseguição dos anos
                               Numa música, um rumor e um símbolo,

                               Ver só na morte o sono, no ocaso
                               Um triste ouro, assim é a poesia
                               Que é imortal e pobre. A poesia
                                Volta como a aurora e o ocaso.

(Jorge Luis Borges)
                    

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Segunda-feira, Novembro 23, 2009

A delicada questão do dinheiro...


                                               (Dario Castillejos, «Cagle Cartoons»)

  Já no final de um discurso extremamente importante
  O grande homem de Estado
  numa bela frase oca
  escorrega
  e desamparado de boca escancarada
  sem fôlego
  mostrando os dentes
  e a cárie dentária dos seus pacíficos raciocínios
  deixa exposto o nervo da guerra:
  a delicada questão do dinheiro.


(Jacques Prévert- Paroles- trad. de Manuela Torres)

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Domingo, Novembro 22, 2009

Porquê?



...Descobrir que todos abrigamos nos nossos corações o selvagem, o criminoso e o animal não nos torna mais alegres.
- Qual è a sua objecção aos animais? replicou Freud- Eu prefiro infinitamente a companhia dos animais à companhia humana.
- Porquê?
- Porque são mais simples. Não sofrem de uma personalidade dividida, da desintegração do Ego, que resulta da tentativa do homem de se adaptar a padrões de civilização demasiado elevados para o seu mecanismo intelectual e psíquico. O selvagem, tal como o animal, é cruel, mas não tem a maldade do homem civilizado. A maldade é a vingança do homem contra a sociedade pelas restrições que ela impõe. Este desejo de vingança anima o reformador profissional e o intrometido. O selvagem pode cortar-lhe a cabeça, pode comê-lo, pode torturá-lo, mas irá poupar-lhe as contínuas alfinetadas que tornam a vida numa comunidade civilizada por vezes quase intolerável. Os mais desagradáveis hábitos e idiossincrasias do homem, a sua dissimulação, a sua cobardia, a sua falta de reverência, são gerados pelo seu ajustamento incompleto a uma civilização complicada. É o resultado do conflito entre os nossos instintos e a nossa cultura. Como são mais agradáveis as emoções simples, directas e intensas de um cão, quando abana a cauda ou ladra o seu desprazer! As emoções de um cão- acrescentou Freud pensativamente- lembram-nos os heróis da Antiguidade. Talvez seja essa razão pela qual inconscientemente damos aos nossos cães nome de heróis antigos como Aquiles e Heitor.
- O meu próprio cão- disse eu-é um doberman pincher chamado Ajax.
Freud sorriu.
(...)

(Entrevista dada por Freud a George Sylvester Viereck.))

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Sexta-feira, Novembro 20, 2009

Brel, sempre...

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Quarta-feira, Novembro 18, 2009

Desfalecem, na sombra, as suas asas...



                  Fragmentos

                      I

Quando arrefece o coração das pombas
desfalecem, na sombra, as suas asas...

(Safo-secVII-VI a.C. Fragmento 42 Lobel-Page)

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Segunda-feira, Novembro 16, 2009

Será dos meninos o tempo e a casa



                                             (Maluda)
 Cidade Branca

Dorme já, plenamente, a cidade!
O silêncio é de ouro e os homens
todos o procuram de mãos dadas.
Os velhos, de olhos semicerrados,
amparam-se ao bordão da memória;
emudeceram, no solar dos senhores,
o chicote, o ódio sem disfarce.

Dorme já, plenamente, a cidade!
Aproxima-se o dia. As mulheres,
amadas e repousadas, cantam
em seu sono. Abre-se, em concha,
a mão da madrugada. Lábios e rosas.
Amanhã, ao acordar, a cidade renovada
será dos meninos o tempo e a casa.


(Casimiro de Brito)

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Sábado, Novembro 14, 2009

Com elas nos pensamos...


Das Palavras

As palavras mais simples
foram as que te dei;
o amor não sabe outras,
só estas fazem lei.
As palavras de uso
mais comum e vulgar
são as que amor conhece.
Com elas nos pensamos;
é nelas que tememos
desacertos, enganos;
se nelas triunfamos,
já delas nos perdemos.
Com palavras vulgares
se diz o mal de amor,
seu riso, seu espelho,
o que fica da dor.
E todos os mistérios
que se fazem promessa
e se perdem nos versos
e dos corpos nasceram
são aqui cerimónia
evidente e secreta
nas mais simples palavras
que conhece o poeta.

Luis Filipe Castro Mendes, in "Os Amantes Obscuros"

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"Aguarelas de Turner", "sempre"...



                        ( Turner- Norhan Castle Sunrise)

Enquanto a solução não chega, só me resta evocar, uma vez mais, este espantoso quadro- Norhan Castle Sunrise .

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Sexta-feira, Novembro 13, 2009

Como isto aconteceu?



Sinto-me como me tivessem "despejado" da minha casa e tivessem decidido mudar a chave sem o meu conhecimento ou consentimento. No lugar do título e da belíssima aguarela de Turner surgiu essa  coisa que se apropriou indevidamente de um lugar e de um espaço. Desconheço o que é e como isto acontece. Sei só que estou muito zangada e não descansarei  enquanto não resolver o problema.
Quero, além de mais perceber, como estas coisas acontecem.
Uma surpresa francamente desagradável.

Quinta-feira, Novembro 12, 2009

No Largo das Necessidades havia um terraço...



                               (Palácio da Necessidades)
No Largo das Necessidades havia um terraço, todo em vermelho de tijolo, como se o colorisse uma inquietação transparente. Daquele terraço, via a praça toda à volta, o Palácio das Necessidades com as suas arcadas amarelas, colunas de pássaros regulares como as janelas, e por de trás das janelas homens desejando vitórias e derrotas. Do palácio amarelo, de um lado da praça, escadas longas e ligeiras, feitas de fragmentos cinzentos mesclados de azul em desenhos de verão, de navios e bandeiras, degraus de um patchwork de sereias, como se por debaixo estivesse o mar. Em vez do mar, um jardim, mínimo, porque o Largo das Necessidades é afinal estreito, um pátio com laivos de praça. No jardim, pequeno, há ao abrigo das árvores um banco e outro, mais alguns jogos  montados para crianças. Uma rotunda ao meio, onde podes escrever o que quiseres, e a sombra às seis da tarde. Todo o resto é chuva, nichos, um estrado de madeira do lado de fora de um café, uma cabina telefónica à inglesa, flores de buganvília, fotografias.
O que encontras aqui são os rumores de um mundo que inventa as suas cores, enquanto as pinta. Um realizador que procura a deixa para a protagonista de um filme mudo, um motorista de táxi bêbado que te pergunta o caminho para voltar a casa, uma rapariga que se enfurece porque está apaixonada e ao lado um homem que tem medo dela. Pombos, voo de pássaros e vento quando cai o sol, um jardineiro vestido de Inverno e uma rapariguinha que finge ser Primavera. Na rotunda, alguns velhos jogam um velho jogo de cartas.
Depois chega a noite, a Primavera volta para casa juntamente com todos os demais, excepto nós.
Uma das costelas do jardim, na esquina com a Travessa dos Prazeres, era um prédio cor de morango e mirtilo. Juntos. E a seguir, ao alto, um terraço que parecia feito de inquietação. De um vermelho amargo, forte, obstinado. Excessivo.
Número 22: no terceiro andar ficava a nossa casa. Muito antes de ser a Beirabismo. E na casa havia um corredor, longo como uma memória tenaz.

(Paola D' Agostino- Largo das Necessidades- Fenda Edições)

Quarta-feira, Novembro 11, 2009

Ouçamos...

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Tremores de Terra